noroeste
Entrou toda enrugada e ficou, pequenina, esperando que mandasse sentar. O sorriso ironizou, na idade dela não se vai bem. O tempo medido em colheitas e luas, a idade era muita.
Brava, não podia mais com a roupa, comer era um pouquinho, as pernas não levavam longe. A cabeça também andava fraca, quem sabe umas vitaminas? exigia o olho aberto.
Obrava bem senhora sim, a urina era clarinha.
Quatorze barrigas: sete homens e duas moças casadas, essa que trouxe, a mais nova, tinha mandado chamar para São Paulo. Veio para tratar.
O coração bombeava cauteloso. Os dedos desfazendo a pele drapeada da barriga não sentiram nada a mais que intestinos. O ar entrou e saiu sem ruídos, o pigarro, desculpou-se, era por conta do pito de rolo.
Empertigou-se no momento solene do aparelho apertando o braço.
Pressão de menina, vó.
Parou no meio do botão, desapontada. Assim que não tinha nada, a desanimação, o não lembrar e o que não era como antes, num suspiro serenou e o olho amoleceu ligeiramente.
Então prestou muita atenção repetindo que os comprimidinhos vermelhos eram para melhorar as ideias e os mais grandinhos das vitaminas.
Na despedida à porta, não resisti a saber do olho.
Deixou que visse o ôco da órbita, nenhuma cicatriz, nunca tinha ido ao doutor.
Foi o vento. Sinhora sim, o vento. A roupa tava na corda, a chuva chegava, o marido disse pra não sair com o noroeste soprando. Fazia muito tempo, a roupa ia sujar de lama, soprou mesmo frio o vento que arrancou o olho fora. Não houve precisão de botar pano nem nada. Foi assim. Fazia muito tempo, guardando os vidros.
Vamo, fia.
pensão pré menstrual
para descansar da canseira
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
noroeste
Entrou toda enrugada e ficou, pequenina, esperando que mandasse sentar. O sorriso ironizou, na idade dela não se vai bem. O tempo medido em colheitas e luas, a idade era muita.
Brava, não podia mais com a roupa, comer era um pouquinho, as pernas não levavam longe. A cabeça também andava fraca, quem sabe umas vitaminas? exigia o olho aberto.
Obrava bem senhora sim, a urina era clarinha.
Quatorze barrigas: sete homens e duas moças casadas, essa que trouxe, a mais nova, tinha mandado chamar para São Paulo. Veio para tratar.
O coração bombeava cauteloso. Os dedos desfazendo a pele drapeada da barriga não sentiram nada a mais que intestinos. O ar entrou e saiu sem ruídos, o pigarro, desculpou-se, era por conta do pito de rolo.
Empertigou-se no momento solene do aparelho apertando o braço.
Pressão de menina, vó.
Parou no meio do botão, desapontada. Assim que não tinha nada, a desanimação, o não lembrar e o que não era como antes, num suspiro serenou e o olho amoleceu ligeiramente.
Então prestou muita atenção repetindo que os comprimidinhos vermelhos eram para melhorar as ideias e os mais grandinhos das vitaminas.
Na despedida à porta, não resisti a saber do olho.
Deixou que visse o ôco da órbita, nenhuma cicatriz, nunca tinha ido ao doutor.
Foi o vento. Sinhora sim, o vento. A roupa tava na corda, a chuva chegava, o marido disse pra não sair com o noroeste soprando. Fazia muito tempo, a roupa ia sujar de lama, soprou mesmo frio o vento que arrancou o olho fora. Não houve precisão de botar pano nem nada. Foi assim. Fazia muito tempo, guardando os vidros.
Vamo, fia.
Entrou toda enrugada e ficou, pequenina, esperando que mandasse sentar. O sorriso ironizou, na idade dela não se vai bem. O tempo medido em colheitas e luas, a idade era muita.
Brava, não podia mais com a roupa, comer era um pouquinho, as pernas não levavam longe. A cabeça também andava fraca, quem sabe umas vitaminas? exigia o olho aberto.
Obrava bem senhora sim, a urina era clarinha.
Quatorze barrigas: sete homens e duas moças casadas, essa que trouxe, a mais nova, tinha mandado chamar para São Paulo. Veio para tratar.
O coração bombeava cauteloso. Os dedos desfazendo a pele drapeada da barriga não sentiram nada a mais que intestinos. O ar entrou e saiu sem ruídos, o pigarro, desculpou-se, era por conta do pito de rolo.
Empertigou-se no momento solene do aparelho apertando o braço.
Pressão de menina, vó.
Parou no meio do botão, desapontada. Assim que não tinha nada, a desanimação, o não lembrar e o que não era como antes, num suspiro serenou e o olho amoleceu ligeiramente.
Então prestou muita atenção repetindo que os comprimidinhos vermelhos eram para melhorar as ideias e os mais grandinhos das vitaminas.
Na despedida à porta, não resisti a saber do olho.
Deixou que visse o ôco da órbita, nenhuma cicatriz, nunca tinha ido ao doutor.
Foi o vento. Sinhora sim, o vento. A roupa tava na corda, a chuva chegava, o marido disse pra não sair com o noroeste soprando. Fazia muito tempo, a roupa ia sujar de lama, soprou mesmo frio o vento que arrancou o olho fora. Não houve precisão de botar pano nem nada. Foi assim. Fazia muito tempo, guardando os vidros.
Vamo, fia.
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